quinta-feira, 20 de maio de 2010

Daria uma bela Dança disse Ele!


TABACARIA

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.



Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil: - Em que espelho ficou perdida a minha face?


Retrato

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.

Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles

Motivo


Motivo

Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
- mais nada.

Cecília Meireles

Com o que as crianças brincam?



Eu quero falar sobre o fim de todas as histórias...
que historias podem ter fim? todos os dias, somos gigantes imbecis sem palavras críticas estão mortas, tenho que me calar, diante desta verdade absoluta, eu estou morta, por que agora entendo o que é a decepção, as armas e como as criaças se relacionam com isso, as armas, eu tenho uma mala cheia de armas, agora não há o que falar, ele disse: Brinquedos viraram armas para o mundo ficar melhor, eu tive que fazer isso com uma delas. Baixinha você precisa me dar uma café, né!!!! terminando uma frase e vou lá, vc esta no time das meninas que peninha de galinha, poder pairos, shiiiiiii! uoooooo!! (geme) aponta a raquete e finge que vai atacar, ele quer meter a raquete na minha cara!!!!

aponta ela na minha cara ou no computador, depois bate nos papeis gritando alto eu acertei, acertei...

bate contra a parede!!!!

terça-feira, 18 de maio de 2010





Brigitte Friedrich: Ralf, das ist jetzt ein bisschen schwer verdauliche Kost, aber ich finde sehr interessant. halt mein Empfinden.

Adri: nossa!!

Ralf: wieso schwer verdaulich?
Auf dem Schild steht "Müll wegwerfen verboten"



Brigitte Friedrich: PS habe es geteilt, damit die Leute mal etwas anderes sehen :-

Ralf: lach
Ralf: @Adriane: posso apagar

Brigitte Friedrich: Du weißt genau was ich wie meine, ich mag deine Herausforderungen, auch wenn wir manchmal doch etwas aneinander vorbei reden, aber im großen ganzen, wenn man die Entfernung bedenkt, klappt die Kommunikation doch recht gut
oder?

Adri: marquei a Echuya que fez a foto, quero que ela veja!!! mas traduz ai tudo que esta escrito...

Ralf: vielleicht wegen der Entfernung? ;-)
Das Hintergrundfoto hatte ich mal geschossen, ich fand die Szene interessant. Favela und "normale" Häuser. Dazu das Schild mit dem Müll

Brigitte Friedrich: Eben! ja genau wegen der Entfernung, sie schafft Nähe, aber viele begreifen dieses Phänomen nicht. Und du fandest die Szene auch interessant. OK das Schild war mir zuerst nicht aufgefallen.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A noite na Virada Cultural - SP - 2010



A arte, as possibílidades, os grupos, a organização e como separar as pessoas...
Saí cedo de casa esperando que pudesse ser privilegiada em encontrar por toda cidade, arte, ou representantes dela por cada canto de centro, mas claro mais que isso, ir para o palco de dança que normalmente estava ao lado de Teatro Municípal, naquele espaço gigantesco que desta vez ficou vazio, mas graças a Performance Preto e Branco, que realizava uma intervenção participativa do público, montando um estúdio na calçada
e projetava no prédio de frete, nos animou e por lá ficamos experimentando as possibilidades e nos divertindo com a criação de Samira e Boro que fez muita gente se divertir.

Mas o locaL que antes era refência para os dançarinos e artistas se encontrarem se tornou vazio e muita gente passava procurando o "palco de dança", olhava para abaixo e se decepcionava, havia também muitas projeções de imagens, fora o Preto e branco que se destacava por ter como ponto principal a interação do público!

Fiquei andando pelo centro como sempre fazemos, andando pra ver se me encontrava com alguem fazendo arte de rua, pernas de pau, monociclo, malabares, teatro de rua, estátuas vivas... e não encontrei nada e nem ninguém, apenas os shows e as projeções avulsas que não tinham nada para dizer no meu ponto de vista.

O que aconteceu com a virada cultural? Onde estavam os artistas do centro, as cores a vida, os embalos, onde estava o Palco de Dança que não ocupava mais seu tradicional ponto de encontro no coração da arte, o teatro Municipal?

desta vez o dinheiro para as verbas deve ter sido investido em segurança, por que tinha poucos artistas, mas policiais por toda a rua, isso tinha muito, não estou reclamando mas quando o palco se torna cheio de homens do poder o poder da arte realmente fica aniquilado, onde eu olhava eu via polícia, não via um único artista perambulando pelas ruas... ou apresentações de qualquer coisa na rua... estranho!

Claro no dia seguinte ao amanhecer preferi sair e descançar e voltar para assistir o último show na Praça Julio Prestes, que realmente foi incrível e muito político!

O que podemos fazer se a organização preferiu tirar os artistas de circulação? e montar apenas shows, para que tivessem melhor controle!

O controle não funciona muito cam a arte, por isso muitos devem ter gostado da virada, mas tenho certeza, que a lista do que viram e assistiram foi bem menos que dos ultimos anos! Foi mesmo muito organizado, bouca bagunça e brigas em compensação a noite na virada foi pouco cultural!

O que você vio a noite na Virada? responde aqui!